In(ressureição)

07:53






Em um domingo pascal, eu morri. Chega a ser irônico pensar que, em um dia em que as esperanças se renovam, as minhas tinham acabado. Mas foi assim que aconteceu.

A tragédia, no entanto, já estava anunciada.

Semanas antes, a cozinha teve uma infestação de moscas. Eram muitas. Ficavam por cima dos armários, dentro dos móveis, atravessando a cozinha pequena, recém-reformada, com mobília nova, cheiro de casa arrumada e promessa de recomeço. Mesmo depois de uma faxina cuidadosa, elas continuavam lá. Nada explicava.

Lembro de ter olhado cada canto, procurando algo apodrecendo. Uma fruta esquecida, um resto de comida, alguma coisa morta escondida onde meus olhos não alcançavam.Mas o que estava podre, de fato, eu não podia enxergar.

Havia algo em decomposição ali. A espiritualidade já vinha mandando sinais. Sensações estranhas, sonhos, incômodos, peso existencial, energia drenada. Moscas. A sensação insistente de que algo estava errado, mesmo quando tudo parecia bem.

Talvez tudo estivesse sendo preparado para a grande revelação. Urano já se retirava de Touro e precisava de um último ato: o circo foi montado. E, no fim do show, quando as máscaras caíram, a dor, o amargor. Eis que o cordeiro virou lobo. E a casa caiu.

Foi como uma faca cortando o peito. Uma puxada de tapete. Uma pedra no meio do caminho. Como o banho de sangue de porco no baile de Carrie. Como a morte de Macabéa no final de A hora da estrela. Uma chuva no fim de um dia bonito de praia. O iceberg do Titanic. Um ovo podre estragando a receita inteira do bolo. A formiga no pote de açúcar. A ultima temporada da sua série favorita. 

Uma sequência de pequenas mor
tes tentando me explicar que alguma coisa tinha acabado antes mesmo de eu saber.  Dos meus olhos, as lágrimas desciam tentando lavar a alma, a lama, a trama. Nos dias seguintes, náusea. Desgosto. A comida perdeu o sabor. A vida perdeu contorno. O que era real? O que tinha sido mentira?

Sigo descobrindo, depois do caos, que tudo pode ser mais bonito. Bem assim: depois do fim, depois do nojo, depois da queda. 

Depois da morte, há de ter vida.

Que toda essa merda sirva de adubo.

E que dela nasça a reconstrução de um lindo e exuberante jardim.

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'' Eu quis encontrar um jeito de nunca morrer, e a partir daí, eu comecei a escrever.''

'' Se tem uma coisa que eu aprendi sobre a dor, é que na maioria das vezes, ela também é a cura''

'' Que eu nunca perca essa vontade de escrever. Jamais. O mundo parece uma prisão, às vezes. Escrever é como abrir janelas.''


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